6 de ago de 2011

AMOR EXTRAVAGANTE

     Jesus estava a caminho de Jerusalém, por ocasião da festa da Páscoa. Como era Seu costume, resolveu passar em Betânia, onde tantas vezes havia descansado das lutas diárias. As horas daquele sábado, passou-as Ele com seus amigos naquela aldeia que distava apenas 3 quilômetros de Jerusalém.
     Em Betânia, pelo menos duas famílias tinham bons motivos para agradecer muito a Jesus. Ali Jesus havia curado da lepra um homem de nome Simão. Ali, poucos dias antes, Jesus realizou aquele que foi Seu mais importante milagre: a ressurreição de Lázaro. Tudo isto contribuiu para transformar a atmosfera do povoado.
     A comunidade recebeu de volta dois dos seus cidadãos. A família de Simão estava feliz e as irmãs de Lázaro puderam enxugar suas lágrimas. Tudo era marravilhoso Tudo era alegria! Por causa do que aconteceu, Simão resolveu oferecer em sua casa uma festa de gratidão, um banquete. Jesus estava hospedado ali perto, na casa de Lázaro e fi o vconvidado de honra.
    Diz a Bíblia que “Marta servia”. Eu posso imaginar aquela mulher, verdadeira dona de casa, terna e prática, servindo o Mestre com dedicação e carinho. E também havia a outra moça, sua irmã, de nome Maria. Esta já não era tão prática quanto sua irmã. Aliás, tudo que lemos sobre ela nos leva a concluir que era um pouco sentimental. Talvez o correto fosse dizer: romântica.
     Maria olhou ao redor. Viu a irmã toda atarefada e Lázaro sentado calmamente no salão junto com os outros convidados e o Senhor Jesus. Sem que percebesse, cenas da sua vida passada começaram a invadir rapidamente seu pensamento. Em questão de segundos recapitulou sua vida pregressa. Lembrou-se da vida desregrada que levara até pouco tempo antes, caindo tão fundo na lama do pecado que até então muitos olhavam-na com reservas. Lembrou-se de como seu corpo e sua mente caíram totalmente sob o controle de Satanás, chegando a ser habitação de demônios. Quão grande pecadora tinha sido! Quão longe andara dos caminhos de Deus!
     Mas, lembrou-se também da maneira tão misericordiosa como Jesus a libertara, expulsando sete demônios que dominavam sua vida. Lembrou-se, agradecida, da plena restauração ocorrida em seu viver, quando Jesus, erguendo-a do desespero e da ruína, perdoara seus pecados, dando-lhe um novo coração. Lembrou-se do grande amor de Jesus ao ressuscitar seu irmão. E lágrimas de alegria banhavam-lhe as faces ao recordar tudo isto!
     Ela se lembrou de um perfume caríssimo que possuía. Algum tempo antes ouvira Jesus falar que brevemente morreria. Com tristeza no coração comprou aquele perfume para ungir o corpo do Mestre, quando morresse. Mas agora as coisas pareciam estar mudando, pois muitas pessoas estavam falando que Jesus seria coroado Rei.
     Agora ali estava ela, com o coração completamente restaurado, embora ainda vista com desconfiança por alguns. Mas não importava o que os outros continuavam pensando a seu respeito. O que realmente importava era o que Jesus havia feito por ela e por seu irmão. Agora sua alma estava cheia de reconhecimento.
     Mas será que Jesus sabia o quanto ela O amava? Como poderia demonstrar-Lhe todo o seu agradecimento?  Ora, Jesus havia feito tanto por ela, e, se agora Ele seria Rei, ela queria ser a primeira a honrar seu Senhor.
     Quebrando o vaso de alabastro, derramou aquele perfume caríssimo sobre a cabeça e os pés de Jesus, demonstrando sua gratidão por tudo o que recebera do Senhor. Ao fazer isto, ela estava dando tudo de si sem pensar em mais nada. O amor não faz cálculos.
     Já ouviu a história daquele casal muito pobre que se amava muito?  Eles não possuíam quase nada deste mundo. Mas a jovem esposa tinha longos e belos cabelos. A única coisa que seu jovem marido possuía era um relógio de ouro que recebera como herança do seu pai. E eles se amavam demais!
     Era véspera de Natal e a esposa queria dar ao marido um belo presente, mas tinha apenas um dólar. Então ela foi a uma loja de perucas e vendeu-lhes sua bonita cabeleira, conseguindo vinte dólares. Como foi difícil cortar o cabelo! Mas pelo esposo ela faria qualquer sacrifício. E com o dinheiro ela comprou uma corrente de ouro para o relógio do marido.    
     Enquanto isso, o esposo que também queria presentear sua esposa, também estava sem dinheiro. E foi com muita dor no coração que ele vendeu seu relógio para comprar um presente para sua amada. Com o dinheiro ele comprou duas belíssimas travessas de marfim para embelezar seus cabelos. E pensava: ela vai ficar ainda mais bonita!
     Mas, à noite, quando se encontraram em casa, ele viu que sua amada esposa já não possuía os longos cabelos para usar as travessas de marfim. E ela o presenteou com uma corrente de ouro para um relógio que ele já não possuía.
     Lágrimas? Com certeza foram derramadas muitas! De decepção? De arrependimento? Não! As lágrimas que molharam aqueles dois corpos unidos num forte abraço eram lágrimas de alegria. As lágrimas que inundaram aqueles dois corações eram de agradecimento a Deus pelo amor que os unia, a ponto de cada um dar tudo de si para o outro, sem pensar no preço ou nas consequências. Eles se amavam de uma forma extravagante!
     Voltando à festa na casa de Simão. Maria derramou tudo aos pés de Jesus sem se preocupar com o preço (300 dias de salário de um operário). Ela não pensou em nada. Foi um gesto extravagante, mas ela queria apenas expressar com ele o seu amor, o quanto devia a Jesus: seu coração, sua restauração, tudo enfim. Foi uma demonstração tão profunda que tocou o coração de Jesus.
     Ela fez tudo de uma forma tão desprendida que nem se preocupou com as outras pessoas que estavam no salão. O amor, às vezes, se apega tanto à pessoa amada, que se esquece de tudo o mais.
     O certo é que Maria fez tudo sem nenhum constrangimento. Até soltou os cabelos para enxugar os pés de Jesus. Não importava se outros iriam criticá-la ou não. O que importava era Jesus, que tanto fizera por ela e por seu irmão.
     Mas nós não podemos hoje pensar apenas no que Maria fez. Na verdade, o próprio Jesus fizera muito mais do que aquilo. Foi Ele que, num gesto de extrema extravagância deixou Sua glória e “a Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-Se em semelhança de homens”. (Filipenses 2:7). Esta foi a maneira mais extravagante de amar que se conhece.
     Este amor de Jesus O levou até as últimas consequências: o sofrimento e a morte na cruz, por mim e por você. Sendo um homem perfeito, foi tratado como um criminoso. Pregado na cruz completamente nu, envergonhado, em absoluta solidão, para que pudesse remir com Seu sangue um mundo solitário, envergonhado e nu.
     Alguém escreveu que “se quiséssemos uma acusação para escrever na cruz de Jesus, a única que serviria era: Ele amou demais”. Qual foi a culpa de Jesus? Amar além dos limites cconhecidos pelo homem. Para ser condenado, a única acusação verdadeira pra Jesus seria esta: "Culpado por amar em extravagância".
     Maria conhecia a Jesus. Por experiência própria já experimentara o Seu amor. E por esse amor ela foi contaminada. O que fez naquele dia, portanto, não foi nada mais que uma reação positiva ao amor do Senhor Jesus. Acho bonito quanto João diz que “a casa toda ficou perfumada”.
     Um dia, faz muito tempo, Deus mandou que o profeta Jeremias descesse até onde estava um oleiro fazendo seus vasos. Lá ele viu que um vaso se estragou na mão do oleiro. Imediatamente o homem ajuntou o barro e fez outro vaso, de acordo com sua vontade. Deus então disse a Jeremias que assim como o vaso na mão do oleiro, assim também somos nós em Suas mãos.
     O Pr. José Monteiro foi professor do meu pai. Durante uma viagem ele sofreu um acidente que quase o matou. Foi um dos homens mais capazes e inteligentes que meu pai conheceu. Depois do acidente ele se esqueceu de mais ou menos 90% do que sabia. Para se  ter uma idéia, antes do acidente ele fez o casamento dos meus pais. Hoje ele não sabe quem são eles mais!
    Pois bem, num retiro espiritual, ele estava orando com o meu pai e mais um companheiro, quando disse mais ou menos assim: “Senhor Deus, eu era um vaso escolhido em Tuas mãos e pela Tua graça muitas coisas pude fazer na Tua obra. Mas agora achaste por bem quebrar este vaso. E quão despedaçado ele ficou, Senhor! Neste momento eu Te imploro, ó Deus, se for da Tua vontade, ajunta estes cacos e faz de mim um novo vaso escolhido para o Teu serviço. Amém!”.
     Jesus, certa vez, falando de Si mesmo como a Pedra principal, disse que “todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços”. (Mateus 21:44). Se nós nos deixássemos cair sobre esta Pedra para que o vaso da nossa vida ficasse em pedaços e, se em consequência, a nossa vida fosse derramada completamente aos pés de Jesus, eu penso que terminaríamos a pregação do evangelho com mais facilidade e Jesus voltaria logo. Porque quando alguém derrama tudo o que é e tudo o que tem aos pés do Senhor, uma coisa maravilhosa acontece: sua vida é liberada e torna-se uma bênção para o mundo inteiro. Isto porque todos sentirão o perfume da vida que é derramada aos pés de Jesus.
     Pode ser que isto incomode a alguns. Talvez seus colegas de sala de aula fiquem incomodados. Talvez os companheiros de serviço ou quem sabe, até mesmo os vizinhos. Mas não se preocupe. Eles poderão ficar incomodados, mas não poderão deixar de sentir o perfume da sua vida! É isso mesmo! Lembre-se que Judas também não gostou do que Maria fez, mas não pode deixar de sentir o perfume.
     É possível que sua vida hoje esteja exalando um cheiro de morte para morte. Mas Jesus deseja remodelar o vaso da sua vida como fez com Maria. Jesus deseja fazer hoje uma transformação tão completa em sua vida a ponto de você exalar um aroma de vida para vida.
     Despedaçados em Cristo e remodelados por Cristo, finalmente poderemos ser “como o perfume suave de Cristo” a se espalhar entre todas as pessoas ao nosso redor, abençoando-as com o conhecimento salvador do Nosso Senhor Jesus Cristo.